a morte está em greve.

                                

Era noite de reveillon, não só naquele país, mas no mundo todo. E em dias festivos como esse é normal algumas pessoas passarem da conta na bebida e partirem para a direção. E acidentes acontecem não é?
E aconteceram, naturalmente. Só que havia algo de estranho nisso tudo. Em muitos desses acidentes, a probabilidade que não falha nos níveis de "gravidade" de um acidente não condiziam com o que estava acontecendo. Afinal, por mais violenta que fosse a batida, por mais que os carros terminassem em  perda total, as pessoas continuavam vivas.
E nos hospitais, os doentes também pararam de morrer....os já em estado terminal em suas casas, desacreditados pela medicina, insistiam em respirar, ainda que em agonia, ainda que não dominassem mais suas funções vitais.

E os dias foram passando e a história foi se repetindo. O que poderia parecer uma piada de extremo mal gosto revelava-se agora um fato verdadeiro. Ninguém mais morria naquele país. E não demorou muito para um jornal de grande circulação divulgar uma nota escrita por uma senhora, imortalizada nas culturas e mentalidades do mundo todo: A morte (com letra minúscula mesmo). E ela afirmava nesta nota estar em greve, cansada de ser tão mal interpretada e tão temida pelos homens, e não mais valorizada pela importância que ela tinha para todos eles.

E no país onde ninguém mais morria, o que parecia uma grande dádiva (afinal, quantos foram os alquimistas que buscaram o elixir da vida? quantos não sonharam com a oportunidade de viver eternamente?) se revelava agora um grande problema: afinal, com tantos nascendo e nenhum morrendo, previsões de um colapso econômico, social ou demográfico começavam a aparecer.  E muita gente tinha muito o que reclamar: os hospitais que não venciam cuidar de tantos doentes que já não mais morriam, as funerárias que agora perderam seu sustento, os cálculos da previdência, as famílias que já não queriam mais cuidar de seus entes morimbundos, etc. E a burocracia (problema esse já velho naquele país), aliada a esse fato de ninguém mais morrer possibilita o surgimento da máphia (com "ph" mesmo) que leva pessoas clandestinamente para morrer nas fronteiras....

E é nesse caos todo que José Saramago conta uma história que (mais para frente) vai se revelar com a própria morte sendo a protagonista e de como a humanidade se esquece de sua importância, da sua utilidade e do seu verdadeiro sentido. E o autor ainda cria uma morte "humanizada", com desejos, frustrações e (pasmem) paixões....José Saramago, As Intermitências da Morte.

 

blergh! esse post ficou horrível.