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"Como vou querer que as pessoas entendam o que passa pela minha cabeça se nem mesmo eu entendo?"
- Dalí

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por quê escrevo?

Na minha faculdade tá rolando um concurso de contos, promovido pelo curso de letras mas aberto para todos os alunos da faculdade. A premiação é interessantíssima: os 10 melhores serão publicados, e para as primeiras colocações será dado uma quantia de grana em livros, um mp4, uma impressora multi-funcional e para o primeiro uma bolsa integral para a pós-graduação. Além disso, segundo um camarada meu que se inscreveu essa semana, até o dia em que ele foi apenas cinco pessoas haviam se inscrito.

"Isso cheira a uma bela oportunidade para mim", pensei.

Mas eu estava enganado. Faz uns dois meses que esse concurso foi anunciado, e um mês que as inscrições foram abertas. Terminam dia 30, segunda-feira. Durante todo esse tempo eu pensei em inventar alguma coisa, mas fiquei só no pensamento. A minha vida, por mais inacreditável que pareça para algumas pessoas, é corrida, e eu andava cheio de outras tarefas mais urgentes. Essa semana que eu tive tempo e tranquilidade para sentar e tentar escrever algo...mas..mas..mas...

Não sai merda nenhuma.

É frustrante. TIpo, eu sei que eu não tenho talento algum. Mas tenho uma tendência acreditar em elogios, e isso eu tenho tido bastante. Até a professora que foi na minha sala fazer a propaganda desse concurso disse, na frente da galera toda, que ouviu falar que eu escrevia muito bem. Como ela soube disso, ou melhor, quem foi o idiota que falou isso para ela eu não tenho certeza. Mas sempre vem um e outro dizendo que eu levo jeito pra coisa, e isso e aquilo, etc e tal. E eu acredito, mesmo não querendo acreditar. Algo em mim fica me cutucando, como se estivesse dizendo "vai lá mêu! você consegue! olhe os prêmios cara! só cinco inscritos! você consegue competir de igual para igual com eles!"

Mas se eu tento escrever, não sai porcaria nenhuma.

Tipo, inspiração. Coisa que eu nunca tive. Criatividade zero. Para você escrever um conto, você precisa mais ou menos ter uma boa idéia, e ela
já estar estruturada, fazer algum sentido. Nada disso para mim. Na verdade, eu mal sei diferenciar conto, de crônica, de coisa alguma. Como fazer um conto desse jeito? Aí eu tive uma idéia finalmente, e ontem tentei por em prática. O resultado? Lixo. É tipo, uma novela do sbt. Sinceramente, eu acho que essa idéia era realmente boa, se caísse na mão de quem soubesse escrever. Quem soubesse desenvolver a história. Comigo escrevendo, virou merda. Mal escrito, cheio de clichês, sem coerência...Na minha opinião, o começo eu ainda mandei bem...tipo...os primeiros parágrafos só. Depois, virei alquimista: transformei caracteres em merda.

Agora, eu to nesse impasse. Não consigo escrever, e nem mandaria um roteiro de novela mexicana prum concurso. Melhor não mandar nada e ficar com a pose do "cara que escreve bem, que deveria ter mandado um conto mas não mandou, por burrice, porque se sairia bem", do que ser aquele que "mandou só isso? ué? cadê o cara que escrevia bem?" ou então provocar risos na comissão julgadora. Se os 10 melhores forem publicados e não tiver mais do que 10 inscritos, todo mundo vai ler o meu conto, último colocado, e ver a merda que eu fiz? Não mesmo. Até porque, do jeito que a vida é, é capaz de ter 11 inscritos e só o meu não ser nem publicado.

Por outro lado, eu sei que se eu não mandar nada, aquela pontinha do meu subconsciente que acredita em elogios vai ficar me incomodando pro resto da vida: "e se você tivesse mandado o conto, cara palida? você teria ganho uma bolsa para fazer tua pós, uma impressora que seria vendida para você comprar teu contrabaixo ou um mp4 para você ouvir tua música caminhando e emagrecendo. Mas não, você não mandou. Você é um idiota inseguro, que não vê capacidade alguma quando se olha no espelho, mesmo com tanta gente tentando fazer você enxergar isso! Ao menos você teria uma publicação para colocar no campo 'produção artística' na plataforma lattes e com isso ganharmais pontos para uma eventual análise de titulação em algum teste seletivo. Mas nem isso você fez, otário!''...

É bem isso que passa pela minha cabeça.

Mas uma coisa me intriga nisso. O curso de letras da faculdade possui 4 turmas noturnas de inglês, mais 4 de espanhol. Outras 4 de espanhol no período vespertino. Como que dessas 12 turmas, apenas 5 inscrições foram feitas para esse concurso (isso se esses cinco realmente forem de letras)? Isso me lembra certa vez, quando eu estava lendo a comunidade de letras no orkut, e dois ex-professores conversavam em um tópico sobre literatura: falavam de livros, autores...só de ler os comentários deles já era uma aula de literatura. E de repente, vem o comentário de uma acadêmica:

"ai professores...vocês falam tanto de livros ai..eu não leio tudo isso não".

Pessoas como essa serão professoras dos nossos filhos. Se eu fizesse o curso de letras, eu iria devorar literatura na proporção em que eu leio livros de história. E talvez eu estivesse mais seguro para escrever um conto, pois ao menos eu saberia diferenciar conto de crônica.

Vai saber.

- Escrito pelas 15h02, .

...

Eu estudei por 11 anos no mesmo colégio. Fiz também catequese na frente desse colégio, e também pratiquei esportes como basquete e vôlei além de participar da banda marcial nessa mesma escola. Tudo isso me fez passar várias vezes pela rua José Boiteux. E na quadra do colégio, pichada no muro da igreja eu sempre lia (e ria da) a sugestiva frase:

"merdas cagadas não voltam ao cú".

Vai chegar um dia em que pessoas escreverão livros sobre a minha vida, e a melhor dessas obras será a que analisar a influência que essa pichação teve na minha formação e na minha vida, de maneira geral.

Por  hora, cito ela apenas para dizer que nos próximos dias essa página voltará ao seu ritmo de funcionamento normal.

- Escrito pelas 01h27, .

Alguem sente falta?

- Escrito pelas 00h44, .

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