Lembrei de um dia em que passei a mão numa revista Veja e li uma noticia sobre a transferência do traficante Fernandinho Beira-Mar para um recém construído presídio de segurança máxima, se eu não me engano aqui no Paraná. Na matéria, que narrava um pouco da vida do traficante no seu novo "lar", o autor conta que foi dado a Beira-mar uma edição do livro O Senhor dos Anéis, afinal, tempo ele tem de sobra para essas leituras que nós, trabalhadores e estudantes não temos para ler obras assim, de "grosso calibre".
Mas o traficante não aceitou o livro. Não por ele ser analfabeto, ou por não gostar de leitura: seu argumento era o de que aquele livro não ia lhe ensinar nada, e ele só gostava de ler algo que o fizesse aprender alguma coisa.
Literatura é uma arte, e quem escreve pela arte tem um enorme valor, que talvez seja desconhecido por Beira-mar, que nasceu numa realidade bem diferente da que a maioria de nós que apreciamos uma boa leitura nascemos. O meio e a sua estrutura familiar que o fizeram bandido. Mas o que me intrigou nessa história foram os livros que, segundo o traficante, nos fazem aprender alguma coisa.
Quanto mais o tempo passa, de 2005 para cá, menos eu tenho lido os "livros que não ensinam nada". Num fim de semana chuvoso ou no qual passo esquecido pelas as pessoas, ou ainda nas férias é quando eu ainda encontro a oportunidade de ler esses livros. De resto, só leio o que tem me feito "aprender alguma coisa". Talvez todo esse conhecimento seja inútil para Beira-Mar (história, patrimônio, ensino, etc), mas essas leituras aproximam-se da definição dada pelo traficante de "boas leituras".
E os ultimos livros que eu li por fora das leituras da faculdade? Dois do Nick Hornby, um sobre futebol e outro sobre música, narrados em prosa, sem pretensões artísticas, mas que me ensinaram bastante coisa, essas que eu até estou passando para frente por ai.
Meu blog não é literatura, nem tenho pretensões artísticas com ele. Comecei ele pensando em exercitar minha redação (e se alguém lê ele desde o seu começo ou visita o histórico, percebe que tem dado certo) para um dia eu fazer a faculdade de jornalismo, sonho que eu já abandonei. E o que tem me feito continuar, mesmo tendo decretado o fim dele umas três vezes, são os seus leitores. Na maioria meus amigos, que nem gostam do quê eu escrevo, ou que acham que eu escrevo mal,mas que entram porque esse é o meu blog, e eles querem ler o que o Zé, o amigo deles, escreveu. Simples assim: nada de Nobel, mas vez ou outra eu recebo uns tapinhas nas costas ou ouço relatos de boas risadas causadas por mim e meu blog.
E é justamente ai que se encontram a história do Beira-Mar e o meu blog. Uma amiga minha, num dos momentos em que eu estava de saco cheio disso aqui e não querendo postar mais nada, me disse o porquê dela gostar desse blog. "Com o teu blog Zé", disse ela, "dá pra se divertir e aprender algumas coisas. Eu pelo menos conheci e aprendi muita coisa lendo ele". E em momentos (como nas ultimas semanas) em que eu fico pensando em não postar mais nada aqui eu lembro disso e isso parece que dá um gás novo para continuar. Com erros de português ou não.
Eu sei que eu não sou um escritor, nem poeta, nem jornalista. Eu sei que o que eu faço não é arte, mesmo se a minha definição de arte fosse "plagiar o que as músicas que eu gosto e meus amigos falam para narrar minhas dores de cotovelo". Minhas pretensões passam longe disso.
Além do que as estatísticas do Google indicam, eu sei que eu tenho uns 20 leitores frequentes. E cada um deles, se lhes fosse perguntado "porque você lê o ninguemjose?", iria responder: "porque é o blog do Zé". Simples assim.
Tem talvez os que entram pelo marketing que eu fazia antes, mas a maioria são meus amigos mesmo. Se eles dizem que gostam de ler aqui apenas para não perder a minha amizade (se é que eles se importariam com isso) dane-se: pelo menos eles dedicam uns 5 minutos de suas vidas cada vez que eu posto algo. E na correria em que o mundo anda, isso para mim é um sinal de consideração dessas pessoas pela minha pessoa. Talvez eles tenham realmente aprendido algo aqui, conhecido alguma banda, filme ou livro aqui indicado. Talvez eles tenham ido até atrás dessas coisas e percebido que realmente não concordam comigo em nada. Mas entram, sempre. E pouco importa se tem um doente que fica vasculhando erros de português para comentar como "corretor ortográfico": se mesmo com esses erros, esse blog tem a aprovação de dois professores meus, que fazem doutorado, tá valendo. Se tem meus amigos que gostam, tá valendo. Se tem até inimigos que me odeiam, mas que não se agüentam de coceira e vem aqui bisbilhotar, ainda que seja para falar mal ou comentar meus erros ortográficos, tá valendo.
Pois o raciocínio é bem simples. Não gosta, não entra. Eu por exemplo, só leio blogs em RSS. Quando não gosto mais de um blog ou de quem posta nele, simplesmente apago, e não leio mais. E nem me dou ao trabalho de entrar mais nele. Mas parece que o ninguemjose.zip.net é tão cativante que tem gente que não consegue parar de vir aqui, mesmo me odiando. Esse é o poder da escrita inculta, não acham?
Mas resumindo: nesse blog não tem literatura, não tem arte, não tem dor de corno e nem norma culta. Ele tem bom humor, (um pouco de) inteligência, erros de português (aos montes), leitores fieis (inclusive 6 assinam o feed, e o sétimo assina e desassina a toda hora), pessoas que comentam e que não comentam, gente que diz que lê e gente que lê escondida, e bastante informação útil: segundo a minha amiga que eu citei ali em cima, você pode até aprender alguma coisa lendo ele.
E a moral da história? Fernandinho Beira-Mar adoraria ler meu blog.
obs- Já pensou na publicidade que eu poderia fazer com isso?



