Raul do povo
Para quem não sabe, todo ano no planeta União da Vitória acontece um show musical em homenagem ao aniversário de morte do Raul Seixas. Estrelando um professor de música daqui que não se contenta em fazer apenas o cover da música de Raul Seixas: ele é cover do próprio roqueiro baiano, o que significa uma apresentação em forte teor alcoólico, erros e esquecimentos de trechos de letras, etc. Mas a voz do cara, quase que perfeitamente igual a do Raul Seixas e uma banda de apoio extremamente competente fazem desse show anual um ótimo programa para quem sente falta de opções mentalmente sadias de entretenimento.
O problema do Raul é o povão que gosta dele. É o tipo de povo que conhece só três músicas do Raul (e ainda acham que Gita é uma canção de amor e Sociedade Alternativa é só uma canção de uma pobre rebeldia), que rebola e faz a "dança do siri" em Meu Amigo Pedro, que pede Vampiro Doidão e que, por não conhecer quase nada da obra do Raul, pede "as mais antigas" (como se o Raul estivesse vivo e lançando músicas até hoje). E o pior de tudo: invadem o palco.
Ai, os pelegos sobem no palco com os seus "litrões", fazem gestos de rapper para mexer os lábios (porque não sabem a letra), pegam o microfone e gritam: "Viva o Limeira!" e se ofendem quando o (único) segurança do lugar pede educadamente para que ele se retirem dali. Dá vontade de ser segurança só para fazer aqueles babacas voarem daquele palco e perderem no mínimo uns três dentes na queda.
Mas, passada à raiva desses caras que me atrapalharam o show, fico pensando numa causa maior para esse tipo de comportamento. Quando eu vejo o que a secretaria de cultura daqui da cidade promove eu fico meio indignado por serem atrações que somente quem tem grana pode desfrutar: aquele show da banda cover dos Beatles era vinte reais, a peça com o Cecil Thiré era mais ou menos nesse preço, oficina de teatro ou cursos de culinária e de vinhos para os burgueses da cidade, entre outros. Mas e para os que não tem grana para essas coisas? E não é só a galera dos bairros mais carentes não; eu mesmo, que tenho um padrão de vida um pouco melhor, não tenho dinheiro para fazer quase nada dessas paradas. Pra mim sete reais para ver o show cover do Raul já é caro (ainda bem que eu ganhei entrada livre, he he he). Ou seja, tem muita gente que merece acesso à cultura, e não só os mais ricos. Ainda por ser um órgão da prefeitura, acho que a obrigação é até maior para com os desfavorecidos: afinal, quem ganhou cesta básica para colocar o atual prefeito no poder foram eles. E como diz aquele som dos Titãs, eles não querem só comida, querem também arte.
Mas ai fica a pergunta: será que o povo não merece cultura a julgar pelo exemplo dos pelegos que fizeram fiasco no show de ontem, ou será que, tendo acesso constante à atividades culturais eles não aprenderiam a respeitar (e aproveitar) melhor? Sem falar que não se pode julgar todo mundo que não é rico pela ação de meia dúzia de mal-educados.
E ai?
- Escrito pelas 12h38,
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vou te contar...
Calafrios a correr pela espinha, aperto no peito e uma vontade de sair correndo e enfiar a cabeça no primeiro buraco que aparecer (sem piadinhas engraçadinhas). Apenas alguns sintomas meus quando eu ouço duas das frases mais indesejadas que eu posso ouvir:
"Ei Zé, posso te fazer uma pergunta?" ou "Cara, vou te falar uma coisa, mas morre aqui, beleza?"
Se alguém pede para perguntar alguma coisa ao invés de simplesmente fazer a pergunta, desconfie. Vem coisa braba por ai. Ou então, a pessoa já sabe que você tem grandes chances de não gostar da pergunta. Ou não saber responder. Em algum casos, pode até ser que a pessoa já saiba da resposta que você vai dar, mas ela quer só se divertir vendo você mentir respondendo outra coisa que não seja o que você realmente pensa. Ou então a sua vergonha. Na dúvida, nunca pergunte isso para mim. Não queria saber minha opinião de nada que você julgue eu não vá gostar. Nenhuma pergunta indiscreta, nem nada. E tenha certeza: melhor perder alguns diálogos a me ver imitando uma avestruz por ai.
O "morre aqui" é foda. Ou a pessoa falando isso mostra que não confia nem um pouco em você e seu bico fechado, ou então ela desconfia que você seja um retardado que não reconheça a gravidade ou importância de um assunto mais sério. Ou quem sabe ela está se preparando para falar mal de algúem que você gosta ou respeita, a ponto de não querer que essa terceira pessoa futuramente sabia que um dia você ouviu falar mal dela e não contou, e essas coisas todas. Também evitem isso comigo.
Eu sou muito chato para conversar. Ou desinteressante. Ou as duas coisas, acrescidas de outros defeitos.
- Escrito pelas 23h46,
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livros vs. filmes
Eu sou completamente a favor de ser disseminado o hábito de leitura entre as pessoas. Mas acho que, e vocês devem concordar, que a coisa deveria ser feita do jeito certo.
Sobre o quê eu pretendo falar não acontece só no Brasil, mas no mundo todo. Porém é no Brasil que isso incomoda porque, ao contrário de países europeus (e também alguns dos nossos vizinhos latinoamericanos), nós brasileiros, e também os americanos (que são o nosso ideal de "way of life") lêmos muito pouco.
O que eu não concordo é com essa mania de fazer filme de livro que está fazendo sucesso. E cada vez tem durado menos o período de tempo entre os lançamentos do livro e da versão cinematográfica. É lógico e você pode argumentar isso comigo, que a qualidade literária da maioria desses livros é bastante duvidosa e que os best-sellers assim o são, pois existe toda uma máquina funcionando na indústria cultural sujeita às vontades dos grandes editores e da grande mídia, mas devemos concordar que, num mundo da maneira como esse nosso está atualmente, com internet, mp3,4,5,6,7..., tevês por assinatura e celulares que tem mais funções que o meu computador (para citar apenas algumas tecnologias), é louvável um livro conseguir prender atenção de um bom número de pessoas por mais de cinco minutos.
E o quê acontece com esses livros?
Fazem algum sucesso, vendem bem, e logo logo (às vezes em menos de um ano) já é anunciada uma adaptação para o cinema. A partir disso, os seres humanos consumidores tomam diversas atitudes as quais eu reprovo. Muitos não vão nem ler o livro, pois "já tem filme e eu não curto ler". Outros vão ler antes do filme sair, pois "quando sair filme vira moda, e eu já vou ter lido". Quando o filme sai, muitos vão ler "porquê tem o filme". Isso sem falar nos que vão ler "porque tá todo mundo lendo" (acredito que esses são a maioria).
Primeiramente, se você ver um filme e só depois ler o livro, a tua leitura estará bem estragada. No momento da leitura será inevitável a associação que a mente faz de personagens com atores, lugares com o que você viu no filme, etc. Mas isso nem é o pior. Como um razoável leitor que eu modestamente me considero, eu me pergunto: "O que eu estou lendo?".
Excetuando as leituras as quais a gente é forçado (como é o caso de alguns textos da faculdade), uma pessoa lê textos científicos somente se estiver afim, se ela realmente está atrás daquele conhecimento. Por exemplo, uma dona de casa católica que aprecia novelas não vai ler nunca algum livro que fale do "Ano 1000". Já nos textos de ficção, nos romances, o ato de ler é uma valorosa experiência. Uma obra literária é uma obra de arte. Então se você lê Kafka, Dostoievski, Joyce, Machado de Assis, Graciliano, Guimarães Rosa, ou outro dos inúmeros nomes imortais da literatura mundial (a arte não tem fronteiras) você está lendo o trabalho desses autores, a arte desses caras, com suas características, vícios e virtudes. O que não acontece quando se transfere essas obras para um roteiro de filme. Não entendo muito de literatura tecnicamente falando, mas no filme muitas vezes perde-se a escrita característica do autor, seu estilo de narrativa, etc.
E eu não to dizendo que é ruim ver adaptações de filmes, muito pelo contrário. Cinema também pode ser arte, mas uma arte diferente. Cito aqui o Paulo Autran: "O teatro é arte do ator, o cinema do diretor, e a televisão dos anunciantes". E a literatura é do escritor.
Porém, defendo que essas obras sejam lidas antes, e que essa leitura não seja motivada pela sua versão cinematográfica ou pela lista dos mais vendidos. O incentivo ao hábito da leitura deve ser feito de uma maneira que as pessoas leiam encarando os livros como verdadeiras obras de arte, como assim o são, e não mero produtos de consumo de massa, como os blockbusters do cinema. Devia ser feita uma lei universal que proibisse a adaptação de um livro para o cinema num espaço de 10 anos (no mínimo) do lançamento de sua primeira edição. E nesses 10 anos, as pessoas deveriam ser incentivadas a ler esses livros, mas não porque a Veja disse que é bom, a vizinha está lendo ou outro motivo menor do que o mais nobres: Literatura é arte, ler é um exercício (plim-plim) saudável e lendo a gente fica menos burro e manipulável.
SE bem que, tem filmes muito legais que só depois de assistir que a gente fica sabendo que são adaptações de livros já existentes. Mas são poucos comparados à maioria.
- Escrito pelas 16h51,
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chico ao vivo.

Você era a mais bonita das cabrochas dessa ala
Você era a favorita onde eu era mestre-sala
Hoje a gente nem se fala mas a festa continua
Suas noites são de gala, nosso samba ainda é na rua
Hoje o samba saiu, lá lalaiá, procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais esquece não pode reconhecer
Quando o samba começava você era a mais brilhante
E se a gente se cansava você só seguia a diante
Hoje a gente anda distante do calor do seu gingado
Você só dá chá dançante onde eu não sou convidado
O meu samba assim marcava na cadência os seus passos
O meu sonho se embalava no carinho dos seus braços
Hoje de teimoso eu passo bem em frente ao seu portão
Pra lembrar que sobra espaço no barraco e no cordão
Todo ano eu lhe fazia uma cabrocha de alta classe
De dourado eu lhe vestia pra que o povo admirasse
Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia
Hoje eu vou sambar na pista, você vai de galeria
Quero que você me assista na mais fina companhia
Se você sentir saudade por favor não de na vista
Bate palma com vontade, faz de conta que é turista
Já tá rolando na net para baixar o cd do show Carioca, que eu tive a oportunidade de assistir no dia quatro de abril de 2007 no Teatro Guaíra, em Curitiba, no balcão 2, fila A, poltrona 32. O cd é uma oportunidade para pessoas que entendem tanto da obra de Chico Buarque (a ponto de se auto-intitularem "filhos" de Chico) terem uma pequena noção do que é ver o Chico ao vivo, o que milhões de "simples mortais" como eu tiveram a oportunidade de ver nessa turnê.
Eis os links, para o CD1 e o CD2
- Escrito pelas 10h57,
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a foto da capa
Como muita coisa que eu prometo fazer no blog e não cumpro, não vou mais colocar no espaço da capa do blog as capas de todos os discos do Chico. Foi só a do primeiro e, cabou-se. Porém, resolvi colocar essa foto que vocês podem perceber ai (para que ainda não sacou, favor olhar no canto esquerdo superior do blog). A foto chama-se Sky Chase, de autoria do italiano Manuel Presti (site oficial), e mostra uma revoada de pássaros nos céus de Roma. Essa fotografia rendeu ao seu autor o prêmio principal no concurso Wildlife Photographer Of The Year 2005, realizado pelo Museu de História Natural de Londres e a revista BBC Wildlife. Recentemente a foto foi usada numa edição da National Geographic - Brasil, e também está na capa do mais recente e ótimo disco do Wilco, Sky Blue Sky.
Escolhi a imagem pela sua beleza, quebrando assim o mal estar de vocês visitantes, quando lêem as coisas que são escritas aqui. Também porque cada vez que eu fico olhando para ela, fico me imaginando como o passarinho solitário (mais à direita na foto, impossível não perceber). Acho que temos muito em comum. Percebam.
- Escrito pelas 01h11,
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acharam que eu tinha esquecido deles?
Madrugada de sábado para domingo. Um frio de lascar, um ou dois graus no máximo, que com asensação térmica caíam para menos um, menos dois graus. Na calçada gelada em frente a um bar de rock na cidade, alguns jovens estavam sentados, cantando canções juvenis. Canções punks, de protesto. Eles eram punks e protestavam.
Conheço duas garotas daqueles grupo. Colégio particular a vida inteira, cursinho pré-vestibular fora da cidade, pais pequeno-burgueses, faculdades fora da cidade, com um padrão de vida bom e roupas punks compradas em alguma loja cara.
Todo o apoio do mundo para brincarem de punks durante as férias na cidade natal. E deve ser uma brincadeira muito divertida, para ser feita num frio de trincar os ossos numa calçada suja de uma rua escura.
Mas a brincadeira cansa. Elas levantam, tiram o celular da bolsa, ligam para os pais, e dentro de uns quinze minutos, uma caminhonete cara estaciona, "papai chegou", vamos embora. Hora de protestar no orkut, tomar um toddyinho quente e dormir na caminha confortável, para quem sabe ir na missa no outro dia pela manhã com a familia ou almoçar fora.
Desse jeito até eu queria me revoltar e protestar. Pena que nasci pobre.
- Escrito pelas 22h57,
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midia palhaça
Durante a transmissão dessa bobagem de jogos panamericanos na globo, Galvão Bueno explicava para os brasileiros porque uma minúscula ilhota no meio do caribe (um "fiapo" de terra) chamada Cuba consegue ter mais sucesso em competições esportivas do que o gigante em suas dimensões continentais chamado Brasil. Segundo Galvão, Cuba vai bem por que o estado comunista, além de comedor de criancinhas, investe pesado no esporte, com o objetivo de fazer propaganda do regime. Fiquei pensando no Brasil, onde enquanto cientistas não tem dinheiro para financiar pesquisas, enquanto a educação vai mal, atletas recebem a tal "bolsa atleta" para conseguirem trazer medalhas de latão "folheadas a ouro" para o país e a mídia anestesiar os problemas reais do país, fazendo o povão esquecer que passa fome, não tem segurança, educação nem saúde. Isso não é propaganda de estado?
Aposto que muita gente ligou a tv na globo domingo para ver a cerimônia de encerramento do pan, esperando mais vaias ao Lula (e assim sentir-se orgulhoso por ser um sulista "inteligente"). Porém se depararam com aquela cara gorda do Faustão. Como que, depois de dois anos enchendo o saco com essa história de Pan, passando esporte quase o dia todo (só dando pausas para culpar o governo pela tragédia do avião), depois de gastar milhões na cobertura dessa palhaçada, a globo simplesmente "esqueceu" da cerimônia de encerramento?
Um dia antes, a Globo fez todo um alarde com a volta dos atletas cubanos. Segundo a Globo, com medo de mais "fugas" de atletas, Fidel mandou voltar todo mundo que estava competindo no Brasil. E depois de muita propaganda anti-comunista, com todos aqueles clichês que todo mundo já cansou de ouvir, como que a Globo poderia explicar os cerca de 200 atletas cubanos que estavam representando o seu país na cerimônia? Simplesmente não transmitiu, presenteando os que esperavam vaias ao Lula (e os "Hoy" entendidos como "Oi") com aquela cara de bunda do Fastão e com todas as suas horrendas atrações.
Por essas e outras que a mídia quase me faz desistir de um dia ser jornalista.
- Escrito pelas 00h13,
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volta às aulas
O Bruno Medina, tecladista da banda Los Hermanos, escreveu no blog dele tempos atrás um texto onde ele explicava a diferença entre amigos, melhores amigos e amigões. Mudando um pouco a idéia dele, podemos dizer que "amigos" hoje em dia são qualquer pessoa. A palavra "amigo" tá muito banalizada, e qualquer pessoa pode ser sua amiga (como exemplo quase que perfeito, os amigos do orkut). Mas podem também ser aquelas pessoas que você convive no trabalho ou na faculdade, ou que eventualmente encontra numa festa e bebe junto (mas que quando você cai de bêbado, ele te sacaneia ao invés de ajudar).
"Melhores amigos" já são diferentes. São aquelas pessoas que você faz questão de encontrar numa festa e dar um abraço, conversam direto (e os papos são muito melhores que o dos amigos) e coisas assim. Só que existem bastante "melhores amigos". Seus "melhores amigos" Muitas vezes tem outros "melhores amigos" que não necessariamente são seus amigos. E muitas vezes, seus melhores amigos podem ter "amigões".
Os "amigões". "Amigão" é melhor que "melhor amigo". Amigão é quase um irmão, um brother. Mais ou menos como aquela historinha bem clichêzona "da familia que a gente escolhe". São as pessoas que você leva um tiro por elas. São aquelas pessoas realmente indispensáveis na vida, que você gosta pra caralho, que quando juntos qualquer programa de índio junto vira a melhor festa do ano e que principalmente (e mais principalmente no meu caso) você vê que essa amizade é recíproca.
Digo tudo isso porque hoje oficialmente terminam as minhas férias, e durante algumas semanas eu pude experimentar o que eu julgo ser ter uma vida legal. Claro que isso terá consequências seríssimas, uma vez que, para ter tempos legais como esses que passaram eu deixei de lado tudo que eu tinha que fazer nas férias e isso concerteza vai me reprovar na faculdade. Mas é bom poder passar uns tempos de bom humor, sem preocupações e essas coisas. E isso eu devo muito aos "amigões", que quase na maioria não moram em União da Vitória, e que de seis em seis meses reúnem-se todos ao mesmo tempo nessas terras.
"Amigões" são as pessoas que nos levam a sério e não nos tratam como lixo, como é de costume de alguns "melhores amigos"
- Escrito pelas 23h10,
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- Ver os textos que já foram pros arquivos.