Essa cidade fede, em todos os cantos.
Minto.
Essa gente fede, em todos os poros.
"Como vou querer que as pessoas entendam o que passa pela minha cabeça se nem mesmo eu entendo?"
- Dalí
Essa cidade fede, em todos os cantos.
Minto.
Essa gente fede, em todos os poros.
São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar
(Chico Buarque e Vinícius de Morais)
Raimundo não era descendente de europeus, desses cheio de consoantes no sobrenome. Muito menos tinha sangue azul, ao contrário. Vivera toda sua vida no esquecido estado do Piaui – um dos ou o mais pobre do Brasil – na constante luta travada diariamente contra o incerto amanhã. Era analfabeto, nunca pode frequentar a escola pois desde muito cedo teve que ajudar a familia a garantir o magro sustento. Já adulto, casou-se, teve seus seis filhos que, num triste círculo vicioso obrigado pela pobreza endêmica da região, caminhavam para ter um destino semelhante ao de seus pais. Mas nem por isso deixava de sonhar. Entre a luta pela água potável e para poder colocar um prato de comida na mesa de sua familia Raimundo sonhava com uma vida melhor, com um futuro melhor para suas crianças. Tinha fé acima de tudo, apesar de saber que só fé não adiantaria. Mas nem por tudo isso Raimundo deixava de sorrir. Raimundo tinha seus amigos, tinha sua amada e seus filhos. Tinha histórias de infância e adolescencia para contar. Não frequentara a escola mas tinha a sua sabedoria – a sabedoria do homem simples, do homem do campo. Poderia ser também uma sabedoria triste de quem a adquire na luta pela sobrevivência, mas também valia. Raimundo tinha uma história como a de qualquer pessoa nesse mundo: teve uma familia, uma infância, amores, amizades, sonhos, esperanças, alegrias, tristezas e dificuldades.
Mas a vida desse Raimundo e de tantos outros que lá viviam acabou recebendo um novo capítulo triste. Uma barragem mal construída e/ou mal conservada se rompeu, e milhões e milhões de litros d’água varreram tudo a quilômetro e quilometros quadrados além. Varreram árvores, postes, casas e vidas como a de Raimundo. Raimundo não sobreviveu para continuar sua saga e seus sonhos. Muito menos para ouvir as cruéis piadas dos que dizem que o povo do nordeste pediu tanto por água que ganhou em acumulado. Antes disso, Raimundo talvez não percebeu ou teve consciência para, entre uma novela e outra, notar a diferença de tratamento entre as cheias que o seu estado e seus vizinhos sofriam com as cheias que no ano anterior sofriam os alemãezinhos e italianinhos branquinhos e de olhinhos azuis, com seus sobrenomes dificeis de pronunciar sofriam no Sul. A morte de Raimundo nem foi percebida pelo país, por você ou por mim. Raimundo foi só mais um na estatística de dados que muitos de nós ignoram ou não se preocupam – enquanto tentam uma cidadania européia. Talvez se Raimundo tivesse tornado-se um jogador de futebol famoso, ou ele simplesmente estivesse num avião de companhia francesa, fosse digno de ter sua história de vida contada para nós. Ou ao menos ter sua foto no jornal nacional (se ele tivesse alguma foto, é claro). Ninguém de nós vai saber se esse Raimundo realmente existiu. Não saberemos os nomes das mais de 200.000 pessoas que sofreram com enchentes no nordeste neste ano. Nem dos que morrem de dengue ou outra doença tropical, pois eles não foram até o México ou aos EUA para contraí-las. Nem dos que morrem e estão morrendo de fome. É mais fácil tratá-los como estatística, como um fato a ser ignorado, pois “envergonha o Brasil”. Só vamos nos preocupar com essas pessoas nas próximas eleições, para chamá-las de “ignorantes”, pois votam num presidente que dá a eles R$ 60,00 mensais para não morrerem de fome, enquanto muitos de nós gastam esse quantia em uma noitada qualquer. Enquanto isso, vamos decretar luto e procurar saber da vida de pessoas de sobrenome dificil, brancas e de olhos claros, “gente como a gente”, “gente do Brasil”, que “desapareceram” no mar.
Até mesmo quem você odeia pode ser muito importante
Alguém que você usa de espelho pra se ver de trás pra diante
Até mesmo quem você não conhece pode ser pessoa de Fé
Alguém que não espera que você não seja o que é
Até mesmo quem te sacaneia também tem o seu papel
Te mostrando o quanto ainda falta pra você bater nas portas do céu
Até mesmo a nossa humanidade pode ter alguma salvação
No dia em que todo mundo reconhece que todo mundo é irmão
Há cento e cinqüenta mil anos atrás
No colo da Mãe África
Éramos todos negros
Sem dinheiro e sem pátria
Uns foram pro norte outros foram pro sul
Esqueceram do vovô macaco
Mas somos todos
Farinha do mesmo saco
Nós somos todos
Farinha do mesmo saco
Até mesmo quem você despreza pode ter o seu valor
Pessoa que não se entrega e não foge da vida por medo da dor
Até mesmo um bêbado e drogado pode ser o porta-voz
Daquele ser iluminado que um dia andou aqui entre nós
Até mesmo a Santa Ignorança também tem sua importância
Fazendo com que a gente cresça pela doença e a inconsciência
Brancospretosjaponesesárabeshindúsmulatasjudeus
Todos feitos à mesma imagem pelo amor do mesmo Deus.
Há cento e cinqüenta mil anos atrás....
E os cientistas norte-americanos, depois de gastar zilhões deDólares e trocentos anos, chegaram a estupefaciante conclusão deque geneticamente falando, não são muito diferentes, vermes,vacas e humanos...
Nós somos todos
Farinha do mesmo saco
E nem entre numas de pensar que você está sozinho
Bem do seu lado pode ter alguém precisando do seu carinho
Por Carlos Maltz.
Chinês empurra suposto suicida da ponte e o acusa de egoísta.
Essas noticias alternativas fazem a alegria da galera, como na comunidade “Anão vestido de palhaço mata oito” e no grande podcast estrelado por Ronald Rios e Nigel Goodman – o Repórter Bêbado. Mas não é preciso vascular noticiários em busca dessas bizarrices ocorridas na China, no leste europeu ou na América Central. No interior do nosso brasilzão rolam muitas dessas histórias – às vezes muito próximas de nós, como na nossa pequena e singela União da Vitória. Histórias essas que, por falta de um site de internet, acabam virando lendas urbanas.
No início da década de noventa, contam os antigos, ocorreu aqui o seguinte causo. A centenária ponte ferroviária Machado da Costa (ponte de ferro), antes de ser modificada e asfaltada para a passagem de carros em 1999, ficou durante muito tempo abandonada, servindo apenas para pedestres e ciclistas. Nas madrugadas era o “point” de todo o tipo de freqüentadores da noite uniãovitoriense, como os metaleiros, que protagonizam essa lenda.
Conta-se que certa noite uma mulher decidiu dar fim a própria vida naquela ponte, mas encontrava-se ainda indecisa, como o chinês que na matéria acima estava procurando mais chamar a atenção do que realmente suicidar-se. Foi então que um dos metaleiros resolveu dar apoio moral a essa senhora e encoraja-la nos seus intentos, empurrando-a da ponte. Acontece que a mulher acabou caindo na parte seca da ponte, uma região de banhado e vegetação ciliar que acabou por “amortecer” sua queda. Não tendo água suficiente para afogá-la a mulher acabou sobrevivendo – e os instantes de queda por quais ela passou, experiências popularmente descritas como momentos onde “passa toda nossa vida diante dos nossos olhos” serviram para dar um novo sopro de amor à vida para a pobre mulher, que não prosseguiu na intenção de dar cabo com a própria vida.
No dia seguinte, um folclórico radialista desceu a lenha nos seguidores do deus-metal, tratando-os como marginais e esquecendo das qualidades humanísticas e motivacionais dos indivíduos nesse episódio. Creio que a experiência deles, aliadas à algumas piadinhas infames e alguns “powerpoints” desses que a gente recebe aos montes em nossos emails os tornariam aptos a darem palestras para qualquer curso de pedagogia no Brasil. Mas não, eles saíram da história apenas como malfeitores adoradores do diabo.
Se essa história é 100% verídica já não sei.
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