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"Como vou querer que as pessoas entendam o que passa pela minha cabeça se nem mesmo eu entendo?"
- Dalí

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enquete.

esse blog deveria voltar a ser atualizado, ou "tá massa" assim? abs.

- Escrito pelas 13h45, .

?

alguém entra aqui ainda? sente falta? ou tá bom assim? abs.

- Escrito pelas 01h28, .

tristeza, por favor vá embora, ou relaxa e goza.

Primeira cena:

Um grupo de homens está sentado em uma mesa de bar, em uma animada roda de pagode. Ao redor da mesa, belas mulheres com trajes sensuais dançam com os sambas executados pelos homens. O clima é de festa, descontração, carnaval. Quando eis que de repente a música, a dança e a alegria são interrompidas por uma indignada mulher que interroga todo o grupo sobre a preocupação dos mesmos com a crise econômica que atualmente atinge todo o planeta. Com certa ironia, um dos homens – interpretado por um conhecido ator global – finge que concorda com a mulher com a exclamação “que tristeza” para depois emendar outro samba - o mesmo chamado “Tristeza” – ignorando os protestos daquela mulher que depois se afasta do grupo com um dos braços agitando no alto o sinal de ‘negativo’ com o indicador, ainda protestando contra a pretensa ‘alegria de viver do brasileiro’.
Trata-se de um comercial de sandálias, todo mundo deve ter visto, de uma empresa nacional que tem como um de seus principais motes o orgulho de bem representar o Brasil no exterior, não apenas com um típico produto nacional industrializado (num país que se orgulha de por mais de 500 anos ser um agro-exportador), mas com toda essa ‘alegria e felicidade do brasileiro’, o ‘jeitinho brasileiro’ sacramentado para inglês (e americano, japonês, europeu) ver.
A construção da imagem da mulher que protesta contra a festa brasileira no comercial é explícita: em contraposição às belas e sensuais mulheres que sambam junto com o grupo, a protestante é representada como uma mulher feia (estatura baixa, gorda, de óculos, cabelo preso sem cuidado), mal vestida (roupas pesadas que contrastam com o restante da cena, típica do verão brasileiro) e de certa forma masculinizada. E chata no modo brasileiro de encarar a chatísse: uma pessoa que não gosta de festa, não é uma mulher gostosa, que vem com ‘papos intelectuais’ e que ‘tenta estragar a alegria dos outros’. É impossível, ao meu ver, não associar essa mulher com a senadora Heloísa Helena do PSOL. Eu vou adiante: defendo que essa foi a intenção da propaganda.

O brasileiro comum acaba achando maravilhosa a propaganda, e concorda com a mensagem publicitária sobre a chatísse daquela mulher. Já colhi várias opiniões nesse sentido. Para o brasileiro comum, essa alegria de viver do brasileiro ‘que não desiste nunca’ é o maior patrimônio do país. Tudo bem que a crise é algo que afeta a todos e que é ‘incômoda’, mas para quê se preocupar com isso? Vamos tomar cerveja, pagodear e ver bunda de mulher gostosa, foda-se a crise.

Agora: o cenário é outro.

Crise aérea. Acidentes acontecendo. As empresas de aviação vendendo mais passagens do que a capacidade dos aviões e isso gerando filas e espera nos aeroportos. O brasileiro comum, de classe média, que teve um aumento no poder de compra e agora pode viajar de avião se indigna. Porém, mesmo sabendo da situação dos aeroportos, ao invés de ficar em casa esperando o seu vôo, vai para o aeroporto agitar. As redes de televisão estão sempre lá, quem sabe ele consiga aparecer em algum canal e protestar contra ‘esse comunista bêbado que compra voto de nordestino miserável’. Eis que uma integrante do mesmo partido do comunista bêbado, na ocasião ocupando um ministério do governo, utiliza-se de uma metáfora para o sexo (o segundo assunto preferido da nação, além da própria ministra ter sido sexóloga) pedindo para que aquela classe média revoltadinha com uma situação de crise no sistema aéreo nacional (causada pelas empresas, não pelo governo) “relaxassem e gozassem”. Foi a gota d’água para aquela classe média ignorante e seus meios de alienação: revistas como a Veja e programas de tv caíram de pau em cima da ministra. Logo surgiria aquela bobagem de ‘movimento cansei’ e tudo mais, vocês devem lembrar.

Dá para entender aonde eu quero chegar? São dois cenários iguais e ao mesmo tempo completamente diferentes, um da ficção e outro real, que ajudam a refletir sobre a nossa cultura nacional, o nosso ‘jeitinho alegre de levar a vida’ e a maneira com o qual o brasileiro se preocupa com o que está acontecendo em sua vida. O que faz com que o espectador que trabalha 8 horas por dia para poder gastar o restante em frente a uma televisão desdenhe de uma ‘mulher-macho’ que se preocupa com uma crise que está afetando o bolso e o emprego de todo mundo a favor de um ator de novela ‘batucando’ com chinelos um sambinha para uma gostosa dançar, e esse mesmo brasileiro se indignar com uma declaração com um certo tom de humor (ok, talvez inapropriado para a posição do cargo daquela senhora e para a situação) sobre uma pretensa crise que só afetava uma pequena parcela abastada da população? Afinal, tanto o comercial quando o caso do ‘relaxa e goza’ são semelhantes nesse ponto: tratam uma situação delicada com humor. A diferença está que se na entrevista da ministra ela só foi infeliz na maneira que escolheu para dizer ‘tenham calma, paciência, que logo tudo se resolve e vocês vão poder aproveitar sua viagem para Miami tranquilamente’, quando nessa propaganda que está sendo veiculada a mensagem é justamente a de alienação, de ‘pra quê se preocupar com o mundo, o país e meu bolso, se a ceva ta gelada e a gostosa rebolando?”.

Ok. Talvez o tom aqui esteja exagerado. Quem sabe a mesma infelicidade da ministra ao escolher aquelas palavras tenha acometido os publicitários que bolaram a propaganda. Mas diferentemente da mensagem do noticiário, que ao menos em teoria é o de apenas informar (e a fala da ministra está dentro desse veículo), a mensagem publicitária é em sua natureza a de persuasão. A de convencer o receptor a não somente comprar o produto, mas a idéia do produto (é o fetiche da mercadoria). E quando se constata que uma empresa que prega um certo orgulho de ser brasileira e da brasilidade mostra no mínimo uma irresponsabilidade ao veicular tal mensagem, podemos tranquilamente duvidar ainda mais sobre o Brasil ser realmente ‘o país do futuro’.

- Escrito pelas 12h42, .

perseguida jaca

Nunca comi uma jaca. Deve ser pelo tamanho, pela grande quantidade de pessoas que dizem detestá-la... sempre que me dizem que um filme é ruim, vou lá e assisto, porque sei que é bom. As exceções são raras e a jaca deve ser deliciosa. Dizem que tem gomos, feito fruta do conde, ou sei lá o que, pois cada pessoa me dá um depoimento diferente. Admito que já estive bem próximo de experimentá-la, mas foi como aqueles beijos que perdemos por um fio, um vacilo de adolescente, como foi o caso da Luciana.
Eu dormia no sofá da casa de minha amiga Ciomara, às dez da manhã, quando Luciana chegou. Linda, cabelos longos, olhar meio vesgo, ou era a posição em que me encontrava que não deixava ver direito. Mas as maneiras ao sentar-se, dobrar as pernas, as longas roliças pernas de Luciana! Ficou ali, conversando comigo, com a pasta da faculdade sobre as saias curtas.
Não lembro que inspiração angélica me veio naquela manhã, que lhe falei tudo quanto sentia das coisas que se transformavam em beleza, o quanto os sons e as cores eram importantes para mim, e as estrelas, que me reservavam sítios paradisíacos sempre que me transportava até elas. Luciana revelou então os seus segredos de bailarina antes de levantar-se para fazer o chá.
À mesa, nossas mãos quase se tocaram quando fomos apanhar a colher de açúcar, enquanto nos contávamos de que matéria se compunha o céu..
— O que você fez com minha amiga? — diria a Ciomara no dia seguinte. — Ela não pára de falar em você.
Fiz como com a jaca, que esteve várias vezes prestes a desmanchar-se em minha boca, mas escondeu-se em detalhes de cada uma das circunstâncias que a aproximaram de mim. Refugiado no banheiro enquanto Luciana arrumava o apartamento, a água morna da banheira compensava todos os meus desejos, de tantas Lucianas que passaram assim, bonitas, elegantes e prontas para mim, mas parecia-me que descobrir aquelas delícias seria perdê-las para sempre, no oceano de todos os saberes acumulados.
— Está precisando de alguma coisa aí? — disse ela da lavanderia, pela fresta da janelinha do banheiro.
— Nada — respondi, como se Deus descascasse a jaca, partisse em pedaços, oferecesse o mais suculento e saboroso e eu o recusasse para poder continuar imaginando como seria, se fosse.

Chico Guil

- Escrito pelas 21h50, .

Essa cidade fede, em todos os cantos.

Minto.

Essa gente fede, em todos os poros.

- Escrito pelas 17h45, .

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